B

Data de lançamento: 30 JANEIRO 2026
 
O coletivo Cara de Espelho regressa aos discos com o muito aguardado segundo álbum de estúdio ‘B’. Em temas como os novos singles “D de Denúncia” e “Bem-Vindo” , a banda — formada por Carlos Guerreiro, Luís J Martins, Maria Antónia Mendes, Nuno Prata, Pedro da Silva Martins e Sérgio Nascimento — reafirma a sua identidade singular: uma fusão entre tradição portuguesa, sonoridade contemporânea e letras incisivas que refletem e questionam o mundo que nos rodeia.

Cara de Espelho "B" Official Album Playslist (2026)

Letras

Cego
Pelo credo
Prega mais um prego
Verga-te aos pés do teu senhor

Escuta e replica
O mantra da Mentira
Medo, desprezo e rancor

Dessa caneta sai a cruz que tu carregas
E essa dura realidade sempre negas

Toma a tua pá e cava uma cova no chão
No dia que te faltar o ar é que vais ter
noção

Quem aceita é parte da seita
Aceita e és parte da seita

Endireita
a pala
Mete outra bala
Ajusta a mira pra quem é

Estranho
fraco e pobre

Olha mas que sorte
Vais dar um tiro no teu pé

E seguindo a palavra de quem manda
Embriagado em doutrina e propaganda

És tu quem mais perde e ainda te sentes grato
Em terra de toupeira quem tem um olho é rato

Quem aceita é parte da seita
Aceita e és parte da seita

O fantasma que persegues só existe
Na forma de um domínio que consiste
Em fazer com que acredites que o
mal está só aí
Um mal que serve apenas como um mero álibi

Pra esconder o grande mal que alguém já preparou pra ti

Quem aceita é parte da seita
Aceita e és parte da seita

Olhem para o gigantone
A correr na avenida
Por muito que fanfarrone
Agora talvez questione
O rumo da sua vida

Muitos anos de entrudo
E desfiles carnavalescos
Adiar, adiou tudo
Não se dedicou ao estudo
Ganha a vida no grotesco

Ai o que foste
fazer
Ai o que foste
fazer

Passa o tempo em
ginásios
E grupos da internet
Como é seu apanágio
É comum vê-lo em
estádios
A saltar ao torniquete

Por ser tão desmesurado
Com o seu ar assustador
É por vezes contratado
Por agentes do diabo
Para espalhar o terror

Ai o que foste fazer
Ai o que foste fazer

No boicote a um lançamento
De um livro pra crianças
No calor do momento
Num achaque violento
Trouxe a mão cheia de tranças

Olhem para o gigantone
A correr na avenida
Por muito que fanfarrone
Agora talvez questione
O rumo da sua vida

Ai o que foste fazer
Ai o que foste fazer

Olhem para o gigantone
A correr na avenida
Agora talvez questione
O rumo da sua vida

Eu quis comprar uma roda
Porque todos iam comprar
E passo a vida agora
A girar a roda
Para a poder pagar

Achava eu com a roda
Iam ver que eu vivia bem
Agora com a vida às voltas
Não sei que volta
Esta vida tem

Quem na sua roda
Não sente o chão?
Quem não?
Quem não?

Quem não sente que
gira uma roda em vão?
Quem não?
Quem não?

Quem não pensa
Epá, vou pôr-lhe um
travão?
Quem não?
Quem não?

Mas tem medo de
dar
Algum trambolhão
Quem não?
Quem não?

Eu quis devolver a roda
(Sim, eu bem procurei saída)
Dar um salto borda fora
Ir-me embora, mudar de vida
Mas quem me vendeu a roda
É na roda que me quer
Faz me sentir com a cabeça à roda
que sem roda eu não sei viver

Refrão

Num mundo em que é a máquina que
pensa e vive por nós
Que nos aponta a direção
Que até usa a nossa voz
E compõe a canção

Num mundo em que o algoritmo dita o
que devemos ver, sentir
e não nos permite escolher
Que nos diz o que ouvir
Calar e comer

Aqui
Aqui aqui aqui
Aqui não há AI
Aqui aqui aqui
Aqui não há AI
Mas é certo e sabido que anda por aí
Aqui
Não há AI

Num mundo onde a evolução devia
livrar-nos do esforço ingrato
Para a humana criação
Se nos tira esse prazer
Pra que serve então?

Num mundo em que esta coisa vai fazer
tudo melhor que nós
O que será de nós assim
Se nada nos valoriza
… é o fim

Aqui
Aqui aqui aqui
Aqui não há AI
Aqui aqui aqui
Aqui não há AI
Mas é certo e sabido que anda por aí
Aqui
Não há AI

Vem de Paris ou de Berlim
Ou de Berlim
de Nova Iorque ou de Pequim
ou de Pequim
Vende-se a casa e o Jardim
O querubim
Venha de lá esse pilim
 
Será bem-vindo
Será bem-vindo
 
Vende-se a prata e o cristal
Do enxoval
Vende-se o mar o sol, o sal
Vende-se o mar
Vende se todo o Portugal
Ilhas e tal
Venha de lá o capital
 
Será bem-vindo
Será bem-vindo
 
Vende-se o fado e o futebol
O caracol
A bifana e o rissol
E o tintol
Vende-se a mãe, o pai, a prole
Vende-se a prole
Venha de lá o carcanhol
 
Será bem-vindo
Será bem-vindo
 
E toda guita que vier
Ai que vier
Ai que bem que nos vai saber
É que vai ser
Mas quando tudo se vender
E se perder
Quem uma esmola nos der
 
Será bem-vindo
Será bem-vindo

Apesar das provas
Faço aqui uma
manobra oratória
que o paleio tudo encobre

E para esconder a
careca
Vou contar-vos uma
história
Mesmo à cara
podre

Olhem p’ro que o
outro é
Olhem p’ro que o
outro diz
Olhem p’ro que o
outro faz
Mas não olhem
para mim

Apesar dos casos
E dos graves
embaraços
Eu sacudo a
lama do capote

E com a mão cheia
de areia
Eu iludo meio
mundo
Mesmo à cara podre

Olhem p ́ro que o outro é
Olhem p ́ro que o outro diz
Olhem p’ro que o outro faz
Mas não olhem para mim

Pois, eu
veementemente
nego as acusações, eu

Estou a ser alvo
De vis difamações, eu
Esclareço tudo
Com vãs divagações, eu,
Eu dou a cara
À cara podre
Apesar dos dedos
Que me apontam em enredos
Não vacilo
E mantenho firme a pose
Juro pela minha honra
Pela saúde dos filhos
Mesmo à cara podre

Olhem p’ro que o outro é
Olhem p’ro que o outro diz
Olhem p’ro que o outro faz
Mas não olhem para mim

Deram-te a cultura
O conhecimento
A Literatura
Ignoraste

Deram-te a ciência
E a tecnologia
A medicina
E tu negaste

Deram-te o humanismo
E a igualdade
A humanidade, sim a
humanidade
E a utopia para agarrares
À tua vontade
Tu largaste

Puseste a cabeça aí
nesse buraco
Escolheste o abismo só porque
sim
Porque era fácil

Deram-te a justiça
E a tolerância
Direitos humanos
Não ligaste

Deram-te um planeta
Paz, democracia
Para cuidares
Não cuidaste

Deram-te a iniciativa
E a liberdade

A humanidade, sim a humanidade
Tiveste um futuro para acreditares
Para avançares
Mas tu recusaste

Puseste a cabeça aí
Nesse buraco
Escolheste o abismo só porque sim
Porque era fácil

Repete-se a história vezes sem fim
E tu nem sabes
Um dia os teus netos dirão de ti
Que foste um fraco

O ministério do anonimato
Tem o prazer em anunciar
Os nomes dos candidatos
Que vou passar pois a nomear
Aqui, está em causa o cargo
De assessoria à direção
E agora, sem mais demoras
Os proponentes ao cargo são:
 
Fulano A, Fulano B
Beltrano C e Sicrano X
Porque hoje é o dia D
Vamos pôr os pontos nos is
 
Fulano A, ora bem cá está
Diz que é sobrinho do Diretor
Casado com a secretária
Do seu amigo antecessor
Fulano B, pois aqui se vê
Pelo currículo que não tem
Foi colega do presidente
De quem a sua sogra é mãe
E aqui está e aqui se vê
Como é pequeno este país
Porque hoje é o dia D
Vamos por os pontos nos is
 
Fulano A, Fulano B
Beltrano C e Sicrano X
Porque hoje é o dia D
Vamos pôr os pontos nos is
 
No ministério do anonimato
Há quem aposte em Beltrano C
Que é amante de um governante
E trata por tu muito você
Aqui, toda a gente sabe
Sicrano X é filho da mãe
Embora aparentemente
Não se aparente com ninguém
 
Fulano A, Fulano B
Beltrano C e Sicrano X
porque hoje é o dia D
Vamos pôr os pontos nos is
E aqui está e aqui se vê
Como é pequeno este país
Porque hoje é o dia D
Vamos por os pontos nos is

Lá vem ele muito feroz
Atirar pra cima de nós
teorias como tijolos
pica pica pica-miolos

Fujam fujam muitas cautelas
Tranquem portas cerrem janelas
Não tem freio nem protocolo
O pica pica pica-miolos

O pica pica
pica-miolos
Pica pica pica-miolos
Pica pica pica-miolos
Pica pica pica

Quer impor uma opinião
Contra toda e qualquer
razão
Quem lhe dá conversa é tolo
O pica pica pica-miolos

Vem para negar a ciência
Toda e qualquer evidência
Nessa teia eu não me
enrolo
Pica pica pica-miolos

Refrão

“Eu sou o pica-miolos
O pica-miolos
Trago papas e bolos
Sou o pica-miolos”

Lá vem ele muito feroz
Atirar pra cima de nós
teorias como tijolos

Pica pica pica-miolos

Quer impor uma opinião
Contra toda e qualquer razão
Quem lhe dá conversa é tolo
O pica pica pica-miolos

Refrão

Lá vem o pica miolos
Vem picar-nos a cabeça
Quando o vejo digo logo
Ó homem desapareça

O meu povo desertou
Daqui da nossa aldeia
Tanta terra semeou
Mas colheu poucas ideias
Aqui nada mais resta
Além da minha solidão
Mas sozinha eu faço a festa
E organizo a procissão

Vai andor vai andor vai andor
vai andor
Vai andor vai andor vai andor
vai andor
Vai

Passou aqui noutro dia
Bem falante um autarca
Que esta aldeia é muito rica
Dá mais lítio que batata
Diz que é pros telemóveis
Carros e o diabo a sete
Mas pra quê num fim do mundo
Sem estrada ou internet?

Veio aqui muito pomposo
Um grande investidor
Qu’isto é maravilhoso
Com este rio não há melhor
Fala em infra-estruturas
Que o turismo é um bom tacho
Isto sem saneamento
Vai o rio esgoto abaixo

Chegou aqui d’outra terra
Um grupo associativo
Diz que o que está na berra
E o conceito criativo
Há aldeias de xisto
Do queijo e até da asma
Eu propus no meu conceito
A aldeia fantasma

Aqui não há empregos
Não há oportunidades
Inauguram cemitérios
Encerram maternidades
só um milagre peço
Quando rezo aos santinhos
Um dia que eu não possa os
andores andem sozinhos

Ficha técnica

Carlos Guerreiro (flautas, flauta de êmbolo, guimbarda, túbaros de Orfeu, tubarões, carretofone, xilofones, sanfonas, percussões, garrafas, sarronca, schlagebell,   assobio e coros)
Luís J Martins (guitarras elétricas, guitarra barítono, guitarra clássica, guitarra acústica, guitarra preparada, viola campaniça, machete, carretofone, piano, metalofone, theremin, noise boxes, electrónica, assobio e coros)
Maria Antónia Mendes (voz e coros)
Nuno Prata (baixos elétricos e coros)
Pedro da Silva Martins (guitarras elétricas, guitarra acústica, assobio e coros)
Sérgio Nascimento (bateria, percussões, percussões eletrónicas, assobio e coros)
Gonçalo Marques (flautas)
 
Letra e música: Pedro da Silva Martins
Arranjos: Cara de Espelho
Produção: Nelson Carvalho e Cara de Espelho
Gravação: Nelson Carvalho
Assistente de Gravação: Tiago Correia
Gravações adicionais: Tiago Correia, Moritz Kerchbaumer e Carlos Guerreiro
Edições adicionais: Sérgio Nascimento e Luís J Martins
Mistura: Nelson Carvalho
Masterização: Mário Barreiros
Produção Executiva: Locomotiva Azul – Paulo Sousa Martins, Rita Almeida
 
Gravado no Estúdio Louva-a-Deus, entre fevereiro e julho de 2025, Lisboa
 
Imagens e Design: Ana Viana

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